Cinema brasileiro. Memória histórica. Política cultural. Formação social.
O cinema brasileiro sempre se constituiu como mais do que uma linguagem artística ou produto cultural: trata-se de um campo histórico de elaboração crítica da realidade nacional. Desde o Cinema Novo, com a obra de Glauber Rocha e sua estética da fome, o audiovisual brasileiro assumiu o compromisso de narrar o país a partir de suas contradições estruturais, enfrentando temas como desigualdade, autoritarismo, colonialidade e exclusão social. A presença de atores e atrizes como Paulo Gracindo, Antônio Pitanga, Léa Garcia, Grande Otelo, Maurício do Valle, Othon Bastos, Jardel Filho, Hugo Carvana, Joffre Soares, Yoná Magalhães, Norma Bengell, Paulo Cesar Pereio, e tantos outros e outras consolidaram um cinema que transformou corpos, vozes e territórios em instrumentos de leitura histórica do Brasil. Esse cinema, mesmo produzido sob condições adversas, constituiu-se como espaço de resistência simbólica, preservando a memória coletiva diante das tentativas sistemáticas de apagamento, sobretudo durante o período da ditadura civil-militar.
Na contemporaneidade, observa-se a continuidade e a atualização desse projeto histórico-estético. A emergência de uma nova geração de realizadores e intérpretes — entre eles Wagner Moura e diversos artistas baianos, herdeiros diretos da tradição glauberiana — reafirma o cinema como prática política e pedagógica. O atual fortalecimento do audiovisual brasileiro não ocorre de forma aleatória, mas está diretamente relacionado ao retorno da cultura como política de Estado, com investimentos públicos, ampliação de editais e estímulo à circulação internacional das produções nacionais. Esse contexto favorece a ampliação do alcance simbólico do cinema brasileiro, permitindo que o país se veja, se reconheça e se projete a partir de narrativas comprometidas com a democracia, a diversidade e a justiça social.
O cinema nacional pode ser compreendido como um dispositivo estético-político de formação histórica e consciência coletiva. Não se trata apenas de representar o real, mas de intervir criticamente nele, disputando sentidos, questionando hegemonias e reconfigurando imaginários sociais. O cinema brasileiro, ao articular memória, política e experiência sensível, atua como instrumento formativo capaz de transformar percepções individuais em entendimento histórico compartilhado. Assim, o atual vigor do audiovisual nacional expressa não apenas um momento favorável de produção cultural, mas a persistência de uma arte comprometida com a tarefa fundamental de narrar o Brasil a partir de seus conflitos, protegendo o passado, interrogando o presente e imaginando futuros possíveis. Glauber Rocha, em toda a sua trajetória, trilhou por esse caminho...
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Joilson Bergher/Produtor de algum conhecimento na área de Filosofia.

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