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José Américo Castro fala de EDISIO MUNIZ FERREIRA “O REI DO CACAU”

*José Américo Castro
Edizio MunizTrigo-Rei-300x250O município de Ipiaú ocupa lugar de destaque na região cacaueira. Em seu território o cultivo do cacau acontece em 768 fazendas numa área de 56.186,70 hectares.

Alguns fazendeiros locais receberam da Ceplac o honroso titulo de “Cacauicultor do Ano”. Desse seleto grupo constam Rosalino Astrogildo Pinheiro (1968), Alberico da Costa Brito (1983), Antonio Calumby (1985), e Juvencio Ancilon Alencar Godin (1987).

Outro produtor, Nestor Mesquita Martins, entrou na historia da lavoura por ter plantado, no curto espaço de dois anos, nada menos que 500 mil pés de cacau hibrido, tornando-se assim um recordista mundial no setor.

Nenhum deles, entretanto, ganhou mais fama e prestigio que o lendário Edísio Muniz Ferreira. Na década de 1960 ele foi proclamado “Rei do Cacau”.

Seu império se estendia por cinco municípios e reunia mais de 50 fazendas que totalizavam 20 mil hectares e produziam, aproximadamente, 150 mil arrobas do cobiçado fruto de ouro.

Edisio Muniz nasceu em Amargosa , no dia 29 de setembro de 1898, e passou a infância em Nazaré das Farinhas. Seu pai, Guilhermino Muniz Ferreira, trabalhava no porto de São Roque do Paraguaçú organizando atracações das embarcações que ali chegavam. Sua mãe se chamava Adélia.

A vida no recôncavo parecia não agradar ao espírito aventureiro do jovem que logo buscou outros rumos. Passou por Gandú e chegou à região cacaueira, no final da primeira década do século passado, “sem um tostão no bolso”.

Era então um simples trabalhador braçal. Juntou alguns trocados, comprou burros e mulas, tornou-se tropeiro, porem sonhava em ser fazendeiro.

A primeira roça, chamada de “Bolacha Quebrada”, foi adquirida com o dinheiro da venda de animais que negociava.A transação envolveu até uma mula de sela que lhe servia de montaria nas viagens pelas matas da região.

Edisio labutou muito, perseverou , superou dificuldades, cresceu e atingiu as culminâncias como “O Maior Cacauicultor Individual do Mundo”, sem nunca ter plantado, sequer, um pé de cacau.

Homem de hábitos simples, quase analfabeto, Edizio Muniz Ferreira se destacou pelo tino para os bons negócios, aplicando os rendimentos na aquisição de novas terras em áreas que hoje compreendem os municípios de Ipiaú, Jitauna, Barra do Rocha, Ubatã e Ibirataia.

O falecido médico Antonio Araponga , vereador na primeira legislatura da Câmara Municipal de Rio Novo (atual Ipiaú), foi contemporâneo de Edísio Muniz Ferreira e a respeito dele escreveu no jornal A TARDE um detalhado artigo. Nesse relato colhemos muitas das informações aqui citadas.

Foi na década de 1930 que Dr. Araponga conheceu Edisio Muniz Ferreira. Do primeiro contato com a excepcional criatura assim narrou :

“ O encontrei nu da cintura pra cima, com um pedaço de imbé, à quisa de cinturão, atando-lhe as calças surradas de zuarte ordinário. Desse cinturão pendia-lhe de uma bainha enfeitada de laço de couro, o facão jacaré de vinte polegadas, rabo de galo, o luxo da época para as desbrotas do cacaueiro e para a defesa às emboscadas de bandidos que proliferavam na zona.

Alto, espadaúdo, branco, olhos azuis, porte atlético, valente, parecia uma dessas figuras lendárias dos contos de Anderson, disposto a tudo nas terras ferazes da nossa zona do cacau”.

Continuando sua narrativa Dr. Araponga detalha:

“À noite, de retorno da roça, Edisio sempre trazia às costas um cacho de bananas para complementar a parca refeição noturna com farinha e o resto de café ralo da manhã . Uma vez um grande pico de jaca estava enrodilho dentro de um desses cachos.

Em seguida fazia armadilhas(laços) para pegar macacos e preás. Eram os pratos prediletos que lhe matavam a fome e supria a carência da despensa pobre”.

Amigo de seus amigos, trabalhador infatigável e dotado de visão e intuição comercial admiráveis, além de uma verdadeira obsessão pelo cacau, o único ramo de negocio em que confiava.

Fez um patrimônio invulgar, na base do credito e da palavra empenhada.

“O compromisso, de boca assumido, era como o mais rijo documento firmado e cumprido à risca, no dia e na hora. Daí o seu prestigio na zona inteira e a corrida desenfreada de pequenos produtores (burareiros) que lhe ofereceriam fazendas nas ocasiões de crise na lavoura, baixa do preço do produto.

Ele comprava todas, nunca recusando mesmo sem dinheiro, ou melhor sempre sem dinheiro. No dia aprazado , entretanto, o dinheiro aparecia. Nunca o vi falhar num compromisso desses. Ninguém lhe apontará um caxixe”, assegurou médico Antonio Araponga .

Em seus dois casamentos Edisio gerou 17 filhos. Com Evarista, a primeira mulher, foram sete:Wilson, Ikamel, Adélia, Nelson, Gelson, Edson, e Vilma.

Do segundo casamento, com dona Anésia Barros Meira, nasceram Nicésia, Ednésia ( mais conhecida como “Zui”), Denise, Edilce (Tita), Edisinho, Edinilza (Popó), Edilson, Raimundo e Alex . Outros dois filhos, Elizeu e Ednaldo, decorreram de relações extraconjugais.

Da descendência de Edisio Muniz Ferreira ainda constam 122 netos, inúmeros bisnetos, trinetos, tataranetos e pentanetos. Somente Nelson Muniz lhe deu 45 netos.

Apesar de ter muitos negócios em Ipiaú, Edisio nunca morou nesta cidade onde seu irmão Juca(José Muniz Ferreira)foi prefeito no período 1951-1955.Residia na Fazenda Liberdade e tinha uma casa em Barra do Rocha, onde ia esporadicamente.

A riqueza não tirou a simplicidade de Edisio Muniz Ferreira. Ele gostava de fumar charuto, prosear com os amigos e não dispensava um bom carteado.

Entre seus parceiros mais constantes nas rodas de baralho estavam o advogado e deputado estadual Agostinho Cardoso Pinheiro e o fazendeiro Athaide Ribeiro.

Na ocasião da Copa do Mundo, de 1970, convenceram Edsio a fazer uma excursão ao México.Resultou indo, mas não assistiu nenhum jogo, nem mesmo a partida final, quando a Seleção Brasileira venceu a Itália por 4 X 1 e conquistou o titulo mundial pela terceira vez.

Preferiu ficar no hotel jogando cartas com alguns amigos que lhe acompanharam na viagem.

No Natal do ano seguinte, ou seja, em 25 de dezembro de 1971, Edisio Muniz Ferreira, “o Rei do Cacau”, morreu no Hospital Espanhol , em Salvador, para onde foi conduzido, no início da tarde do dia anterior, após sofrer uma forte pancada na cabeça, decorrente de uma queda em seu apartamento no Edifício Delcampo, no Corredor da Vitória.

Tinha então 73 anos de idade. Seu corpo foi sepultado na Fazenda Liberdade, no município de Barra do Rocha, onde centrou seu legendário reinado.

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