Jequié: Mary Del Priore  escreve sobre  o livro  Anésia Cauaçu

Mary Del Priore é autora de 47 livros de história do Brasil, como os clássicos  Histórias da Gente Brasileira  e  História das Mulheres no Brasil., vencedora de mais de vinte prêmios nacionais e internacionais e colaboradora de jornais e revistas científicos e não científicos. Doutora em História Social pela  Universidade de São Paulo – USP e pós-doutorado pela  Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, na França., ela tem um programa na rádio CBN-RJ às segundas feiras e sábados, Rios de História, lecionou na USP, PUC/RIO e atualmente é professora do curso de Pós-Graduação da Universidade Salgado de Oliveira. Consagrada escritora e historiadora, Mary Del Priore escreveu um texto enaltecendo o romance Anésia Cauaçu, de Domingos Ailton e destacando o papel da primeira mulher a ingressar no cangaço na República Velha. Vejam abaixo:

Um sertão marcado a ferro e fogo emerge do belo livro de Domingos Ailton.

                                                                  Mary Del Priore

Espaço mítico, onde reinam mandacarus, espinhos e coronéis, ele é o pano de fundo para a história de uma guerreira: Anésia Cauaçú. Desde os anos 80, as universidades vêm multiplicando estudos sobre a condição feminina ou o gênero, havendo mesmo um Dicionário de Mulheres do Brasil com os nomes mais conhecidos.

            Dele não consta Anésia que foi, contudo, um dos personagens mais importantes da República Velha. Por que não a conhecemos? Porque ignoramos a história dos sertões. Eles teriam ficado nas páginas de Euclides da Cunha, e as migrações constantes do Nordeste para o Sudeste o deixaram guardado nas letras de músicas de sanfoneiros e violeiros que, nos paus de arara, vinham para a cidade grande. Ainda hoje, a palavra designa sinônimo de região agreste afastada dos núcleos urbanos e das terras cultivadas. E de fato, o sertão deste romance, é aquele do gado solto, da ausência de cercas, da terra árida e da seca. Mais. Nele transitam jagunços brabos de “corpo fechado”, gente que, encantada, se transforma em bicho, rezadores e pais de santo, pequenos trabalhadores e lavradores e muitos, muitos homens e mulheres violentos.

            Violenta é a cor do céu que vê passar coronéis e autoridades que tentam adestrar ou dominar os sertões. Que tentam impor a lei de fora, à lei local. E essa é a de Talião. Quem a encarna é justamente essa mulher ao mesmo tempo frágil e forte, meiga e brutal, protegida de Iansã e dona da beleza de Oxum: “uma mulher retada”, Anésia. Ela é a protagonista de lutas de família, de embates e choques entre centenas de jagunços. Vestida de homem, capaz de dar golpes de capoeira, de cortar com arma branca, de atirar com arma de fogo e de matar, ela é capaz de viver um grande amor e ódios maiores ainda. Fio condutor do romance de Domingos Ailton, Anésia nos conta a história de milhares de sertanejas brabas ou sofridas, ignoradas pela historiografia, mas que, em momentos importantes de nosso passado – como o da Revolução de 30 – tiveram indiscutível protagonismo.

            Num ritmo cinematográfico, graças a um texto ágil e descrições riquíssimas de detalhes, “Anésia Cauçú” leva o leitor pela mão para os desconhecidos sertões e para uma história de mulheres que merece ser contada e que, mais do que isso, precisa ser conhecida.

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