“Mais Bahia” inova e inclui agenda ‘proibida’ no debate do rádio da Bahia

Pense num programa de rádio que diariamente conecta Brasília a uma cidade de porte médio do interior baiano, reunindo convidados que vão desde acadêmicos das principais universidades brasileiras e integrantes do movimento social a autoridades dos três poderes debatendo os principais temas da agenda do país e da Bahia.
Agora, imagine um programa de rádio que tem quebrado paradigmas e levado para a região sudeste da Bahia uma pauta inteiramente diferenciada, ancorada na defesa dos direitos humanos, do desenvolvimento sustentável e da democratização da comunicação.
Pensou? Se achou que é utopia, errou!
Esse programa existe é o “Mais Bahia” que desde o início de novembro vem sendo apresentado diariamente, de segunda a sexta, pela rádio 93 FM (www.estação93fm.com.br), uma das mais importantes emissoras do interior da Bahia.
O Mais Bahia é uma antiga ideia do jornalista cearense Garcez Almeida, radicado há vários anos em Brasília, agora viabilizado graças a uma parceria com o sindicato dos Bancários de Jequié e região.
“O programa é acima de tudo uma profissão de fé no jornalismo plural e democrático, comprometido com a luta dos trabalhadores, a defesa dos direitos humanos e das minorias, além de um espaço que radicaliza em defesa da democracia e da justiça social”, afirma Almeida.
Temas como violência policial contra jovens negros, racismo, intolerância religiosa, democratização dos meios de comunicação, direitos dos trabalhadores e da minoria e outros assuntos, antes tidos como “proibidos” no rádio de Jequié, ganharam visibilidade desde que o programa passou a ser veiculado. Um exemplo é o descaso com os negros, apesar da maioria da população local ser constituída de afrodescendentes.
Jequié é uma das poucas cidades da Bahia com um quilombo urbano, localizado no Barro Preto, um bairro onde sequer existe um posto médico.
A existência do programa tem sido comemorada por ativistas do movimento social, profissionais liberais e lideranças comunitárias que tentam consolidar um trabalho descolado do clientelismo que caracteriza a existência de muitas associações do município, a maioria atreladas a políticos locais.
O professor João Magno, da Frente Brasil Popular, diz que o programa inaugurou uma nova fase no jornalismo do rádio ao introduzir pautas que nunca foram visibilizadas pelas emissoras locais. “O controle do rádio por setores da política sempre foi um complicador. O formato e a qualidade de sua pauta são importantes contribuições para o desenvolvimento econômico, político e social de Jequié e a consolidação dos avanços que a Bahia vem conquistando”, afirma Magno.
Marcel Cardim, presidente do Sindicato dos Bancários de Jequié e região, diz que o Mais Bahia é um dos fatos mais relevantes ocorrido em Jequié nos últimos anos. “Precisávamos de um jornalismo com um mínimo de liberdade e pluralismo. A forma como assuntos da agenda do país e do nosso estado são tratados provam que é possível construir um caminho alternativo à mídia dominante”, sustenta.
Cardim vai mais além ao reconhecer que os trabalhadores e o movimento social passaram a ter outra visibilidade e inserção no debate sobre o que é importante para a cidade e região.
Maria Helena Santos, a “Mulher de Coragem”, faz questão de mostrar o papel do programa no enfrentamento às injustiças: “Sou uma prova do grau de comprometimento do jornalista Garcez Almeida com a luta contra a injustiça. O envolvimento do programa foi importante para impedir que nossa comunidade fosse violentada por aqueles que se acham donos da cidade” diz ela, numa referência a uma tentativa da prefeitura de desalojar a Associação Comunitária que preside de um espaço comunitário que ocupava no Jardim Tropical, um dos bairros mais pobres de Jequié.
Mas se o apoio de importantes segmentos da sociedade ao programa é um fato, há quem se preocupe com o seu futuro. O líder comunitário, Antônio Queiroz, presidente da associação dos moradores da comunidade rural da Fazenda Velha, é um exemplo. Queiroz, que chegou a liderar um movimento apoiado por dezenas de comunidades rurais pedindo o retorno do jornalista Garcez Almeida à 93 FM, afirma que a forma como o programa trata alguns assuntos, provoca reações. “Muita gente depende do atraso de nossa cidade e da forma de fazer política para continuar mandando. Uma situação agravada pela falta de organização dos trabalhadores” reflete Queiroz.
“A cidade tem uma elite política com dificuldades de evoluir, buscar novas formas de fazer política. O resultado é que as práticas fisiológicas e clientelistas acabam prevalecendo” analisa o advogado Juraci Novato. Opinião parecida tem Carlos Andre, do Sintracal, que chama a atenção para o fato de as pautas do programa provocarem um corte nas velhas praticas políticas ainda em moda na cidade.
Já o deputado Jorge Solla (PT-BA), ressalta o papel do dep. Estadual, Euclides Fernandes, na decisão de a rádio 93 FM, de sua propriedade, veicular o programa. “Ter um programa como o Mais Bahia só é possível quando os dirigentes de uma emissora têm compromisso com a democracia e a democratização da comunicação”. Alice Portugal, deputada federal eleita pelo PC do B, foi enfática ao realçar a qualidade do programa: “O nível é excelente e a pauta é um diferencial importante nesses tempos”.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *