Queimando as bruxas, exorcizando  demônios

Não foi o Datafolha tampouco o Ibobe. O que me move é a curiosidade e a necessidade latente de pesquisador autodidata e estudioso em desvendar os reais motivos que têm povoado as mentes e os corações de milhares de brasileiros nos últimos tempos, especificamente no período que precedeu as eleições e, neste que antecede o segundo turno.

Pesquisei, inquiri, indaguei a uns alí, a outros acolá. Por que o ódio, a violência contra pessoas de ideologia diferente, contra as minorias? As respostas não me foram de todo espantosas contudo, muitas causaram em me perplexidade. Não há como permanecer indiferente diante de acontecimentos no mínimo irracionais. Minha dúvida pautou-se na motivação para o ódio e, se de fato as pessoas compreendem o momento político, o que está em curso, as propostas, suas próprias escolhas.

Com sutileza e atenção fui indagando entre conhecidos, amigos, nas filas, nas praças, na mesa do barzinho e até mesmo enquanto aguardava a vez para votar. Por que este e não aquele outro candidato? Dada a resposta, cauteloso, sempre assentia com a cabeça sem divergir. Quando achava oportuno continuava: Você sabe o que é sistema de governo? Sabe por que somos uma democracia? Sabe por exemplo o que é ideologia de gênero? (Isso devido ao grande número de pessoas indignadas com o tal do “gênero”), o que é homofobia? Pasmem! Uma ou outra resposta mais ou menos. Não obtive uma só resposta coerente. Nenhuma que pudesse sequer embasar o posicionamento político dos meus “entrevistados”.

Entendi então as razões da busca de um “Mito”. Querem alguém, não importa quem, nem de onde vem; querem um “salvador” que os liberte dos seus maiores receios, querem alguém que lhes traga de volta o sentimento de poder, o sentimento do achar que são alguma coisa nesse Brasil de poucos.

Ví pessoas da periferia, moradores do Minha Casa Minha Vida, trabalhadores da rede de calçados, do grande atacadista, usuários do Prouni e/ou outro benefício como o Bolsa Família gritando fora PT. Ví emergentes, oriundos de vida miserável e família paupérrima, que ascenderam socialmente e, agora proprietário de casa, de carro – financiados pela Caixa – ostentando camisas de Bolsonaro. Ví estudantes e até pessoas que se dizem intelectualizadas jurando que o movimento extremista – o Nazismo – que quase dizimou ou judeus, negros e ciganos dentre outros, foi um movimento de extrema esquerda.

Presenciei, abismado, alguns cristãos replicando a frase “bandido bom é bandido morto”, defendendo o porte de armas para todos e, pasmem, afirmando veementemente que só votariam num partido em que as ideologias não divergissem em nada da teologia cristã da sua igreja. Não pude me conter: E existe? Existe este tal partido político? Indaguei. Refeito do choque e aproveitando o momento eu quis saber daquela pessoa o que a mesma entendia por ideologia. As respostas foram muitas. Principalmente as que lembram a moral, a família, os bons costumes, menos respostas concretas que respondesse à minha indagação. Por um momento me senti tentado a perguntar se ela recordava do primeiro e principal mandamento bíblico.

Não sou um frequentador de igreja, não professo religião alguma,porém, nasci em um lar cristão, quando menino meus país levava-me a igreja, minha família é de gente cristã. Sem querer ofender a crença e a fé de quem quer que seja, por um momento pensei duas heresias. Uma: esse deus de papel que eles pregam, um deus que se dissolve na água feito sal, que precisa de ajuda e de alguém que o defenda e mate seus opositores, este deus eu não quero; outra: se alguém tem o contato de Jesus, o Cristo, avisem-no que não retorne, não venha pois correrá o risco de ser novamente assassinado justamente por aqueles que dizem amá-lo.

Os tempos mudaram, mas, algumas coisas não mudam, só de Pilatos eu encontrei às turras com as mais diferentes desculpas. Querem alguém com poderes hercúleos, que ratifique e solidifique quem já está ou esteve no poder, alguém que diga aos milhões de estúpidos que apesar dos novos tempos ainda existe a tal da pirâmide social e eles precisam descobrir o lugar que ocupam nela.

Quando me deparei com os fundamentalistas, muitos deles assalariados ou que por muito esforço e trabalho dos pais terminaram a faculdade de engenharia, administração, direito, medicina, etc., temi por minha vida; ví gente encoleirada como cão raivoso, “defensores” da pátria e tementes a Deus com os olhos tal qual um vampiro.Juntei às minhas experiências pessoais fatos veiculados nas mídias: pessoas que foram mortas por divergirem politicamente, outras agredidas, espancadas, vejo o ódio se avultar de tal modo que as agressões beiram o surreal (cometerem de fato um crime de morte através da telinha).

Diante de tudo isso e analisando cada ação, percebi que o momento político atual é apenas uma desculpa para que alguns exteriorize o que de fato já está cristalizado em suas mentes, em seus corações. É o racismo, a xenofobia, a segregação, o machismo exacerbado tanto no homem quanto na mulher. É o desconhecimento, a convicção baseada no medo, a falta de leitura, a falta de discernimento crítico e informação que ressuscitou o terrorismo velado, que trocou a fogueira da Idade Média pelo fogo das armas, pelo corte frio e sem remorso das armas barrancas; a suástica desenhada à faca em corpos subjugados põem em evidência o desejo higienista; a elite quer o poder de  volta, o poder só seu, para si apenas como sempre foi.

Pior de tudo é que há pessoas das classes B/C achando que pertencem a elite, negros – com branqueamento da raça – pensando na “segregação”, pobres jugando-se burgueses. A questão é mais antiga do que parece. Corroboram intencionalmente e determinadamente a proposital falta de investimento na educação pública dentre outros fatores. O eco dessa ação medonha mostra suas consequências agora. Constato que muitos querem expurgar o Brasil queimando as bruxas(os) e exorcizando os demônios, desde que a bruxa não seja um deles e os demônios estejam nos outros apenas.

Comments
  1. João Mateus
    • Zenilton Meira

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